Pesquisar este blog

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Por que as Testemunhas de Jeová não aceitam transfusão de sangue?

Qual a origem dos Testemunhas de Jeová?
Na década de 1870 o pastor americano Charles Taze Russell publicava suas pesquisas bíblicas em sua revista de criação chamada "A Sentinela". Naquela época seus leitores passaram a se reunir em grupos de estudos bíblicos relacionados as publicações de Russel e, com o tempo, se organizaram numa associação cristã que ficou conhecida como "Estudantes da Bíblia" que se difundiu por toda a América.

Após o falecimento de Russel, em 1916, a associação se fragmentou em diversos grupos, sendo o Testemunhas de Jeová o mais conhecido dentre eles.

No que acreditam os Testemunhas de Jeová?
Dentre as principais orientações dessa vertente cristã estão o não-trinitarismo (trinitarismo se refere a representação de Deus como uma Trindade - "Pai, filho e Espirito Santo") e o restauracionismo (que propõe o resgate do cristianismo apostólico, referente a fase da história cristã conhecida como Era Apostólica).

O não-trinitarismo confere aos Testemunhas de Jeová uma diferença relevante as demais vertentes ao não reconhecer a figura de Jesus Cristo como parte de Deus, e sim como uma figura distinta.

E caso você esteja se perguntando: "Jeová" é apenas uma tradução diferente dos textos originais da bíblia para "Deus".

Por que eles não aceitam transfusão de sangue?
A recusa se baseia na interpretação de alguns textos da Bíblia, tais como: Gênesis 9:4; Levítico 17:10; Deuteronômio 12:23 e Atos 15:28, 29.

Segundo eles a transfusão sanguínea é considerada desrespeito à lei divina, sendo que para esses religiosos é proibida todo tipo de utilização e consumo de sangue tanto humano quanto animal, pois este é visto como um símbolo da própria vida.

Os membros da religião costumam inclusive portar um documento de diretivas antecipadas para o tratamento médico no caso de internação hospitalar.

 Frente a recusa a transfusão, o que diz a lei brasileira sobre o assunto?
A constituição brasileira garante a todo cidadão o direito à vida, considerando-a como um bem jurídico indisponível e inviolável. Por outro lado, também existe a garantia do direito de liberdade de crença religiosa. Tais princípios entram num conflito ético-moral numa situação em que a transfusão sanguínea é uma necessidade urgente para um paciente Testemunha de Jeová. Essa questão coloca o profissional da saúde responsável num cenário onde é necessário escolher entre respeitar e garantir o direito à vida ou à liberdade de crença religiosa, ao realizar ou não o procedimento de transfusão.

Primeiramente é importante frisar que, de uma forma geral, no meio juridico nenhum direito se sobrepõe ao outro, e em dilemas como esse se faz necessário um estudo de caso.

O ato de realizar procedimentos médicos em um paciente contra sua vontade é chamado de "tratamento compulsório" e pode ser considerado como constrangimento ilegal na esfera penal. Nos casos em que o paciente se encontra em risco de vida, no entanto a lei permite a prática do tratamento compulsório não o julgando dessa forma - desde que o caso esteja bem documentado pelo médico.

Ao mesmo tempo, também em casos em que o paciente se encontra em risco de vida, no Brasil a corrente majoritária propõem ação penal por omissão de socorro aos médicos que não realizarem a transfusão no paciente necessitado, independente de sua vontade, pois considera-se que o bem jurídico a ser protegido é a vida do paciente, da qual ele não pode dispor.

Existem criticas à essa corrente jurídica?
Sim. Vejamos: O crime de omissão de socorro é descrito no artigo 135 do Código Penal.

Art. 135 – Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública.

Uma corrente minoritária, critica o fato de que o médico que não realiza o procedimento de transfusão por respeito a vontade do paciente, se estando presente e realizando os demais procedimentos permitidos, não deixa de prestar assistência e, portanto, não se encaixa no tipo penal para omissão de socorro mesmo em caso de eminencia de morte. Considera-se que o contrário trata-se de uma interpretação por analogia do texto penal, o que não é permitido pois é considerado crime apenas o que é devidamente descrito no código (Principio da Legalidade no Direito Penal - Artigo 1º, do CP, segundo o qual não há crime sem lei anterior que o defina).

O que diz o Conselho Federal de Medicina?
O CFM possui uma resolução de 1980 (anterior a constituição) que estabelece o dever do médico de realizar a transfusão no paciente quando na eminencia de mote. Além disso, na resolução, a recusa a transfusão é equiparada a um comportamento suicida, fato esse que recebe muitas criticas. 

Como os outros países tratam do assunto?
Em países como o Estados Unidos prevalece a liberdade de crença do indivíduo civilmente capaz, salvo casos em que o paciente possui dependentes (como, por exemplo, filhos menores de idade).

 E você? O que pensa sobre o assunto? Deixe aqui a sua opinião!
 

sábado, 30 de setembro de 2017

A História da Bioética em nomes

Hipócrates e o Código de Hamurabi politicamente correto

Hipócrates de Cós foi um grande médico da antiguidade. Contemporâneo de Platão e Aristóteles, ele formulou um famoso juramento, que hoje leva seu nome, em que dizia:

“...Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém.  A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda....do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva.  Em toda casa, aí entrarei para o bem dos doentes...”

Por ter assim regulado sua prática curativa, é por Hipócrates, o Pai da Medicina, que se dá a gênese da Ética Médica. Suas normas morais sobrepunham o Código de Hamurabi, violento e vingativo, reestabelecendo a compaixão e dedicação àquele em sofrimento.


Nas muitas voltas da História, a Ética renasce como a fênix no Iluminismo

A Idade Média, carinhosamente apelidada “Idade das Trevas” não recebeu tal título em vão. Em sua duração, a discussão filosófica não era bem vista e, assim como qualquer investigação científica, a Ética foi subjulgada ao controle religioso, sendo pouco discutida. É no Iluminismo que nossos preceitos éticos voltam a ser questionados. Conhecido também como o “divórcio” entre a Religião e a Ciência, o período iluminista permitiu pôr luz sobre o homem, sua biologia, a compreensão de seu corpo e foi então necessário regular essa prática.


Bioética no fluxo da Ciência

Ao seguir das décadas e séculos, a Ciência tomou o interessante rumo do estudo médico do homem e a Ética precisou evoluir, caminhando ao passo dos grandes filósofos. É claro que nem tudo foram flores, mas as discussões sobre legados filosóficos enriqueceram o pensamento ético. Veja o exemplo a seguir. 

Durante séculos, a relação entre homem e animal foi motivo de debate.


Certamente, diferentes épocas permitiam diferentes interpretações. Descartes, por exemplo, acreditava que a linguagem era a maior diferença entre homens e animais, tirando desses últimos a sua sensibilidade.
Voltaire, por sua vez, não concordava com René, alfinetando sua proposição.

Foi Darwin, em sua parcimônia e profundo estudo sobre as espécies que iluminou a questão, dando ao homem o caráter animalesco do desenvolvimento biológico e a consciência necessária à evolução, sem retirar dos animais o direito às sensações.

Mas se você está pensando que toda essa discussão foi suficiente para formular a ética que temos hoje, você está enganado! Não foram necessárias apenas décadas, mas séculos e só lá na década de 1920 que Fritz Jahr colocou, de uma vez por todas, o nome “Bioética” no papel.


Fritz Já sabia

Durante seus estudos em teologia, Jahr desenvolveu um pensamento complexo e normativo sobre a discussão acima. Lançou, em 1927, um artigo nomeado Bioética: uma revisão do relacionamento ético dos humanos em relação aos animais e plantas", em que defendia “Bioética como a emergência de obrigações éticas não apenas com o homem, mas a todos os seres vivos”. A repercussão de seu artigo abriu as portas para o desenvolvimento da Bioética como ramo independente, tendo seus fundamentos descritos no livro de Albert S: 


E assim, com tudo bem claro e documentado, a gente esperava que a ciência médica andasse de mãos dadas com a Bioética, mas a realidade não foi bem assim. Vários casos de médicos não familiarizados com a intenção bioética ocorreram após o seu surgimento. Quando, finalmente, em 1970, Van Rensselaer Potter, um notável bioquímico, sugere a "Bioética Ponte".


A Ponte a qual Potter se refere é a conexão entre os conhecimentos gerados na área científica e os valores morais da humanidade.


Para adequar a Bioética Ponte à realidade social, em 1978, Tom Beauchamp e James Chidress publicaram o livro “Principles of Biomedical ethics” que consagrou os princípios bioéticos de resolução de dilemas:





O conjunto desses preceitos ficou conhecido como “Principialismo”, tendo sofrido duras críticas quanto à justiça social incompleta no modelo.

Para acompanhar as mudanças sociais e se tornar mais adequada à realidade atual, surgiu, em 2001 a: 


E o Brasil? 

Aqui, foi apenas na década de 1980, com a criação do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que ocorreu a primeira tentativa de regulamentar as pesquisas científicas com seres humanos. Entretanto, a preocupação ética com a população economicamente desfavorecida foi evidenciada com a criação do SUS, em 1990. 

Em 1996, o CNS aprovou a resolução 196 do Ministério da Saúde:









quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Bioética na telinha

Se você é do tipo que gosta de filme cult/drama/vamos chorar juntos, então aqui vai uma lista das boas pra te fazer refletir sobre a ética, a vida, de onde viemos, para onde vamos etc e tal!

Menina de Ouro



O treinador de boxe Frankie freqüenta a missa toda semana, mas não é exatamente um devoto. Vai à igreja para atazanar o padre com insinuações capciosas sobre a Imaculada Concepção e outras crenças. Como contra-golpe, é questionado se...continuação da sinopse em Omelete.uol.com

Patch Adams - O amor é contagioso



A verdadeira história de um herói, Hunter Patch Adams, determinado a se tornar médico pelo seu amor...continuação da sinopse em IMDb

O Jardineiro Fiel 


Para uma indústria que movimenta bilhões de dólares, quanto vale uma vida humana? Ou cem? Ou cinqüenta mil? Para os grandes laboratórios farmacêuticos...continuação da sinopse em cinemaemcena.com.br

Hipócrates


Benjamin (Vincent Lacoste) é residente no mesmo hospital que seu pai (Jacques Gamblin) trabalha. Um dia, ao ser chamado no plantão, ele atende...continuação da sinopse em adorocinema.com.br

Intocáveis 


Considerado um fenômeno mundial, "Intocáveis" traz a história de um aristocrata que contrata um jovem para ser o seu cuidador após um acidente de parapente, o que o deixou...continuação da sinopse em cafecomfilme.com.br

Uma prova de amor 












Sara e Brian Fitzgerald são informados que Kate, sua filha, tem leucemia e possui poucos anos de vida. O médico sugere aos pais que tentem um procedimento médico ortodoxo...continuação da sinopse em papodecinema.com.br

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O que você pensa sobre Eutanásia?

A Eutanásia é um assunto delicado de ser discutido, que envolve diretamente a família, a sociedade médica e a justiça em torno da sobrevida. A palavra, que significa “morte boa” traz à tona questionamentos éticos em relação ao controle da vida de pacientes em estados considerados irreversíveis, como o estado vegetativo.

Abaixo, propomos um questionário sobre a questão, mas antes, precisamos esclarecer alguns pontos:

- Segundo Faustino Vaz: “a eutanásia consiste em produzir ou acelerar intencionalmente a morte de alguém para seu benefício. Parece haver uma diferença entre produzir e acelerar. Produzir, neste caso, implica matar; acelerar implica deixar morrer”

-Atualmente, a eutanásia é legalizada na Holanda e Bélgica, desde que expresso pelo paciente em questão.  

-Morte cerebral e Estado vegetativo não são a mesma coisa: A morte cerebral é quando o cérebro e o tronco cerebral perdem irreversivelmente as suas funções, e essa avaliação é usada pelos médicos para determinar se um paciente está morto ou não. O coração da pessoa com morte cerebral não para de bater imediatamente, mas ela não é mais capaz de respirar nem digerir comida sem a ajuda de aparelhos e não possui chances de se recuperar. Já o estado vegetativo configura uma desordem de consciência no qual pacientes com danos cerebrais permanecem em estado parcial de vigília, sem capacidade de executar um comportamento  consciente. Em geral, as possibilidades de retorno a uma vida normal são muito baixas.




Bioética e os Modelos Explicativos

Após a Segunda Guerra Mundial, a ciência teve grandes avanços em um período relativamente pequeno. Pesquisas científicas voltadas para a área da saúde aconteciam sem um manual de ética para estipular limites aos experimentos. Por esse motivo, boa parte deles eram realizados em pessoas sem o menor critério de direito humanos. Dentre muitos outros, podemos citar o Caso Tuskgee, que utilizou de 399 negros norte-americanos para acompanhar a evolução natural da sífilis, negando-os tratamento e impedindo-os de conseguir penicilina em qualquer outro lugar.

Preocupado com a falta de humanização que a pesquisa científica estava tomando, Van Rensselaer Potter, um pesquisador na área de oncologia, criou a palavra "bioética" no intuito de dar um enfoque ético a tudo que se relacionava a vida. O professor Potter quis criar uma ponte entre os "fatos científico" e os "valores éticos", afinal são dois conceitos que devem se inter-relacionar.

Com a evolução da ideia de bioética, em 1978, Tom Beauchamp e James Childress publicaram um livro chamado "Princípios da Ética Biomédica". O livro é o precursor do Principialismo, que é uma corrente da bioética que estipula Princípios Fundamentais que devem ser seguidos para uma conduta ética. São eles: Autonomia; Não maleficência; Beneficência e Justiça. O princípio de Autonomia diz que deve-se respeitar as decisões do outro, como escolhas religiosas e outras decisões que afetem apenas a si próprio. Não maleficência é não causar qualquer dano a outra pessoa de forma intencional. Beneficência significa fazer o bem, independente de desejá-lo ou não. Finalmente, a Justiça, que visa manter a equidade ou igualdade entre os indivíduos independente de qualquer aspecto pessoal.

Esses quatro princípios devem guiar nossas tomadas de decisões em situações práticas e cotidianas para que possamos ser o mais éticos possíveis para com o próximo e com a vida. Entretanto, as situações reais possuem diversos pontos de vista e muitas vezes esses princípios se contrapõem. Quando isso acontece, aplica-se o modelo de tomada de decisões que possui três abordagens: aplicação, balanceamento e especificação. A aplicação consiste em uma decisão baseada nos princípios morais, o balanceamento é escolher qual dos princípios fundamentais tem mais importância na determinada situação e a especificação é ajustar as regras para torná-las o mais abrangentes possível.

Apesar do Principialismo ser o modelo mais utilizado em bioética, alguns especialistas o criticam. A falta de hierarquia entre os princípios fundamentais a priori não ajuda na tomada de decisão de uma maneira prática, disse Bernard Gert. Desta forma, outros modelos surgiram, como o Utilitarismo e a Ética do bem cuidar.

O Utilitarismo se baseia na análise das consequências dos atos, que devem, de maneira geral, aumentar o bem-estar, e por isso "a melhor ação é aquela que produz o máximo de bem-estar". Os princípios fundamentais do utilitarismo, ao contrário dos do Principialismo, são hierarquizados, sendo eles: Consequencialismo, Máximo de bem-estar e Agregacionismo. O consequêncialismo é racionalizar se a consequência de uma ação trará mais bem que mal. O máximo de bem-estar é fazer com que seus atos levem o máximo de bem-estar possível, ou seja, é potencializar uma "boa ação". O agregacionismo diz que é melhor um bem-estar agrupado que um bem divido de tal forma que não seja minimamente suficiente para cada indivíduo. Mas o este modelo também tem suas críticas já que algumas ações que provocam o máximo de bem-estar infligem direitos básicos do individuo. Em minha opinião pessoal, se inflige um direito básico individual essa atitude não condiz com o princípio do agregacionismo e portanto não seria uma ação baseada no modelo utilitarista.

A Ética do bem-estar é contrária a toda essa racionalidade fria dos dois modelos anteriores. Há o argumento de que por se tratar de situações humanas e relacionadas à vida, devem ser ter todas suas facetas analisadas para agir da melhor maneira para aquela situação. Por exemplo, a relação paciente-médico não deveria ser tão imparcial, o médico deveria saber o máximo do contexto do paciente para tratá-lo da maneira mais coerente possível. Entretanto, em situações emergenciais, em que decisões tem que ser tomadas de maneira imediata e um profissional da saúde vai assumir a responsabilidade por essa decisão, esse modelo não tem aplicabilidade.

Muitos são as abordagens para agir da melhor maneira possível quando o assunto é a vida. Talvez a melhor solução seja misturar um pouco de cada um dos princípios dos modelos propostos.

Referências:

  • Aula Bruno Mota Disciplina ACT026- Ética e Legislação Biomédica;
  • Artigo "Uma breve genealogia da bioética em companhia de Van Rensselaer Potter": www6.ensp.fiocruz.br/repositorio/sites/default/files/arquivos/BreveGenealogia.pdf;
  • Modelos de príncipios: https://www.ufrgs.br/bioetica/modprin.htm;

Ética, Moral, Religião e Direito: Conceitos muito próximos ou muito distantes?

A primeira vista, essas 4 palavras parecem temas completamente diferentes. Entretanto, eles possuem pontos comuns e pontos divergentes.

A Ética e a Moral se confundem um pouco para a maioria das pessoas leigas. De acordo com o dicionário, Ética é a parte da filosofia responsável pelo estudo dos princípios que motivam e orientam o comportamento humano, que refletem a essência das normas e valores vigentes em uma sociedade. Já a Moral são regrinhas sociais informais que as pessoas escolhem seguir no intuito de garantir um melhor convívio em sociedade. Logo de cara, é possível perceber as semelhanças entre os conceitos, pois ambos são necessariamente inseridos em um contexto social e não possuem caráter compulsório. O que difere então a Ética da Moral? A Ética é a teoria e a Moral é a prática. A Ética é o estudo sobre os costumes sociais e a Moral são os próprios costumes. Embora a Ética se baseie na realidade, existe muita idealização de determinadas situações já que nem sempre os seres humanos agem eticamente.

Outra inter-relação da Ética é a Religião. Há quem defenda que a Ética se baseie na Religião já que ambas defendem a sacralidade da vida e há quem diga que Ética não deve levar em consideração questões religiosas. Vejamos: A Religião é baseada na crença em uma entidade superior ou divindade, a despeito de qualquer evidência física. Portanto, para ser uma pessoa religiosa é preciso ter fé, que não é algo que pode ser imposto, apenas sentida e talvez cultivada. Assim, não parece justo basear a ética e suas regras sociais em preceitos religiosos. Muitas pessoas buscam as religiões para ajudar a guiar suas ações de modo a se tornarem mais próximas dessas divindades nas quais acreditam. Nesse contexto, as regras religiosas são totalmente plausíveis, pois são escolhas individuais e que não afetam o próximo. Contudo, decisões coletivas que afetem a sociedade de maneira mais ampla não devem se basear na Religião. Um exemplo muito óbvio dessa afirmação é a necessidade de que o Estado seja laico, para que todas as religiões possam ser respeitadas e também as pessoas que não têm uma religião.

Por fim, temos o Direito, que também compreende um conjunto de regras que regem o convívio social. Essas leis são baseadas na Constituição, que é um livro de normas escritas, formais e oficiais, que existem no intuito de garantir aos indivíduos seus direitos e seus deveres. Pelo caráter oficial, são leis que devem ser cumpridas obrigatoriamente ou punições são aplicadas. Apesar do caráter compulsório das leis instituídas pela Constituição, elas estão em constante atualização para garantir que as situações sejam lidadas da melhor forma possível.


De modo geral, podemos perceber que a Ética, a Moral, a Religião e o Direito existem com a função de reger o convívio em sociedade, da melhor forma que cada uma dessas vertentes conhecem. Sempre haverão conflitos de ideais por que cada pessoa pensa e acredita em algo diferente. O que a Ética faz é auxiliar na resolução desses conflitos mostrando como agir de forma ética em diversas situações. 


Imagem de muslim, religion, and christian


Fontes: 

Aulas de Bioética e Legislação Biomédica - UFMG - Professor Bruno Eduardo Fernandes Mota 

https://latuffcartoons.wordpress.com/tag/bancada-evangelica/


Epistemologia: ciência do conhecimento metódico e sistematizado

Por volta de 350 a.C, viveu, na Grécia ainda gloriosa, um senhor conhecido como Aristóteles. Nascido em Estagira, de cabelos curtos e pele bronzeada, passou seus longos anos de vida questionando o mundo ao seu redor e tornou-se um grande nome da Filosofia. Mas o que tem a ver esse singelo senhor com a Epistemologia? 

Aristóteles, na sua caminhada rumo à sabedoria, construiu diversos conceitos à frente de seu tempo, que perduraram e até hoje são base ao nosso conhecimento ou à Epistemologia.
É claro que não foi simplesmente num despertar que Aristóteles descreveu seu conceito do que seria o conhecimento, como obtê-lo ou sua natureza, mas num divagar e questionar constante que o levaram às seguintes proposições:

I) o conhecimento está baseado em três princípios: a Doxa, a Sofia e a Episteme.
A Doxa é o conhecimento espontâneo ligado à experiência cotidiana, que é um misto de verdade e de erro. A Sofia é aquela sabedoria que se adquire depois de um longo período de vivência, como quando estamos velhinhos. E a Episteme é o processo de introdução de um método ao conhecimento, tornando-o sistematizado. 

II) Então, o conhecimento pode ser obtido de duas formas: pelo Racionalismo ou pelo Empirismo.
O Racionalismo obtém o conhecimento de algo a partir do questionamento racional sobre aquele objeto, como faz a Ciência, atualmente. Já o Empirismo dá-nos conhecimento através das experiências que vivemos com tal objeto de estudo. É como quando vemos o céu nublado repetidas vezes, então logo chove, e passamos a crer que um céu nublado terminará sempre em chuva, criando um Senso Comum.  

III) O resultado será um conhecimento: Objetivo ou Subjetivo.
Sendo que, conhecer objetivamente algo significa tomar impressões imparciais sobre aquele objeto e ser fiel a ela, como se faz com as crenças religiosas. Ser subjetivo, ao contrário, configura um conhecimento baseado nas suas impressões sobre tal objeto, e não como ele realmente é. O ramo das Artes é um excelente exemplo dessa subjetividade. Quando Picasso retratava suas mulheres cúbicas, não lhes dava a aparência real, mas imprimia em seus quadros a sua impressão daquelas modelos.

Com tantas resoluções sobre o conhecimento, Aristóteles germinou a Epistemologia que conhecemos hoje. É claro que o cursar da História modificou profundamente o que hoje entendemos por Conhecimento e nessa, mergulhados num período histórico difuso e confuso, passando pela Idade das Trevas científica e por guerras, foi por volta de 1930 que a discussão sobre o que é Conhecimento Epistemológico ganhou contribuições importantes. 

Dois nomes notáveis desse momento foram Robert Nozick e Edmund Gettier. Contemporâneos, mas contrários, Nozick e Gettier deram o que discutir. À época, a obtenção do conhecimento poderia ser: 

I) Proposicional: aquele “saber que” adquirido, por exemplo, com as matérias da escola. Eu sei que 2+2= 4, você sabe que a independência do Brasil se deu em 1822 e nós sabemos que os furacões são ciclones tropicais formados sobre águas oceânicas. 

II) Familiaridade: é a forma de conhecimento que nos permite dizer que os furacões ali de cima causam muitos estragos, quando atingem o continente. Aprendemos isso pelo convívio com essas catástrofes climáticas e pelos noticiários constantes sobre a destruição, atualmente, do furacão Irma. Conceituando, o conhecimento familiar é aquele que obtemos pelo contato que temos com nosso objeto de estudo. 

III)Know-how: aprender e praticar te levam ao conhecimento pelo Know-How. A expressão americana ao pé da letra quer dizer “saber como” fazer, conhecer o âmago de uma técnica ou seu objeto, pela prática que se tem com ele. 

Então, sobre que discutiam Nozick e Gettier? Sobre a fundamentação do conhecimento Proposicional, formulada por Nozick, que era constituído por três preceitos: a existência da Crença e a sua Justificação, que configurava o conhecimento Verdadeiro. 

No papel, a Crença dá-se pela confiança ou fé em algo, a Justificação é a razão firme que se tem para ter determinada crença e a Verdade é a confirmação da crença, que leva ao seu conhecimento verdadeiro. 



Gettier discordava da aplicação prática da Justificação proposta por Nozick. Para Gettier, algumas crenças são verdadeiras e justificadas, mas não configuram o Conhecimento Epistemológico. Em defesa de sua crítica, Gettier bolou o seguinte exemplo, conhecido como O Problema de Gettier: 



Smith e John trabalham no mesmo escritório. Numa manhã, debatendo sobre suas riquezas, Smith pede que John lhe mostre quantas moedas tem no bolso e ele percebe que John tem 10 moedas no bolso. Mais tarde, no trabalho, o chefe de Smith, uma pessoa confiável, lhe diz que John será promovido em breve. Nesse momento então, podemos dizer que Smith sabe que:



Perto da hora de anunciar a promoção, o chefe anuncia que, na verdade, o promovido será Smith. Muito feliz, Smith decide ir ao bar tomar uma cerveja para comemorar, mas percebe que apenas tinha 10 moedas no bolso e que não seria suficiente. Então, vai embora para sua casa.


Analisando o Problema de Gettier, podemos perceber que:
-Smith tinha uma crença: o homem com 10 moedas no bolso será promovido.
-Smith tinha Justificativa para essa crença: o chefe era uma pessoa confiável.
-Logo, a crença de Smith era Verdadeira.

Porém, vemos que o homem com 10 moedas no bolso que foi promovido não era John, e sim Smith. E resumo, Smith tinha uma crença justificada e verdadeira, mas esse conhecimento não era Epistemológico, pois ele não refletia a realidade.

E você, o que pensa sobre o Problema de Gettier? Deixe a sua opinião!